MUSEU VIRTUAL: HISTÓRICO, ANTROPOLÓGICO E GEOLÓGICO

 DE CANTAGALO RJ

CEPEC - Centro de Estudos e Pesquisas Euclides da Cunha

DEFENDENDO A ECOLOGIA DESDE 1959

FAZENDA DE AREIAS

Pesquisado e escrito em 1991

   ESTA FAZENDA é o orgulho de Cantagalo e do Brasil!

   A Casa Grande mantém todas as características da época. Na sua construção foi buscar o Barão canteiros e pedreiros de Portugal, metalúrgicos da Alemanha, e os jardins foram planejados por paisagistas franceses.

   A pintura das paredes são da época do Barão, tendo sido pintadas pela última vez há mais de 80 anos atrás!

 

    AQUI ESTÁ, em toda sua imponência, a Casa Grande da Fazenda de Areias! Hoje, é a empresa Quatro Meninas Agropecuária Ltda., de propriedade do Sr. Bernardo Winkler. Os proprietários anteriores foram: 1840, Barão de Nova Friburgo, depois, o Conde de São Clemente;  Baronesa de Rio Bonito; Embaixador Antonio Clemente Pinto (neto do Conde); Dr. Edgard Faro de Carvalho, sobrinho do Embaixador e Sra. Olga Carvalho, sua esposa. Localiza-se a 30km da sede do Município de Cantagalo, em Boa Sorte (segundo Distrito), do qual dista 5km. Sua área é de 700 alqueires, sendo a maior parte em pasto, uma em culturas, e outra em matas.

   A sala de jantar permanece com os móveis antigos: mesa, cadeiras, etc. No salão principal há móveis da época, um sino de bronze, que era usado para chamar os escravos, e dois quadros, na parede, luxuosamente emoldurados, retratando o Imperador D. Pedro II e a Imperatriz, Da. Thereza Christina.

   Na biblioteca, o mesmo estado de conservação: cadeiras, sofás, estantes, livros. Em uma saleta encontra-se uma placa de prata oferecida pela Brazilian Meat Company (Frigorífico Mendes) à Baronesa de São Clemente, em 1918, pela apresentação do melhor grupo de cinco novilhas, das raças-cruzamentos.

   A escada que conduz ao segundo andar, num hall, é original, portando, no teto, uma clarabóia, que foi feita aproveitando-se um grande e largo tonel de aguardente. Algo verdadeiramente original!

   Nesse hall encontram-se um relógio de grandes dimensões, da época, e um aparelho telefônico, funcionando desde os dias do Barão até hoje.

   A cozinha dos escravos, a casa do administrador, ainda são utilizadas.

   Na parte externa vê-se uma capela,dedicada a N.S. de Lourdes, onde ainda são celebradas missas.

 

     Os engenhos, da época do Império, estão desativados, com exceção da serraria.

   Trata-se de um prédio muito grande, que nos dá uma idéia da importância das atividades que ali se desenvolveram.

   No pátio onde havia a senzala, há um chafariz, onde os escravos lavavam roupa e se banhavam.

   Na década de 1840, a produção era de 135.000 arrobas de café, 300.000 arrobas de milho, 60.000 arrobas de feijão, 50.000 arrobas de arroz. Tinha plantados cerca de 500.000 pés de café. Fabricava tachos, vagonetes, trilhos e outros utensílios em metalúrgica própria. Fabricava aguardente.

   Hoje, esta fazenda se dedica à pecuária de seleção.

   Possui ao todo 1.000 cabeças de gado, sendo 500 vacas criadoras, havendo plano para aumentar para 2.000 o número de cabeças de gado. Produz reprodutores Guzerá e Chianina, com o cruzamento das duas raças para corte.

   Mais para o futuro, pensa o proprietário em introduzir os cultivos de seringueira e urucum. Já plantou feijão, arroz, mas o aproveitamento foi mínimo, devido a problemas climáticos na região. Pretende manter plantios para consumo. Existe uma criação de cavalos. Cerca de 50 animais.

   Havia serraria, engenho completo de cana, café, milho, moinho de fubá, além de maquinaria para produção de energia elétrica, pelo aproveitamento do ribeirão de Areias. Um alambique produzia cachaça, e a metalúrgica, montada por técnicos vindos da Alemanha, produzia os utensílios necessários. O engenho grande, a serraria estão sendo subutilizados, no momento. Há tratores e várias máquinas agrícolas.

   A mão de obra, na época dos Barões, era de cerca de 300 escravos. Hoje, é suprida por aproximadamente 20  colonos, com uma administração moderna e racional.

   Ainda existem as paredes das outras senzalas e do hospital dos escravos, testemunhos de uma época e de uma técnica que já se foram, mas que muito nos falam de uma grandeza que plasmou o presente.

   Uma entrada, nos fundos da Casa Grande, que dá para a sala de jantar, ostenta, no jardim defronte à porta, uma jabuticabeira plantada pela Princesa Isabel.

 

      

    Onde era o terreiro de café, foi construído um campo de futebol.

   Antigamente, havia uma turbina com um canal que vinha de Itaoca, trazendo água para a fazenda. Hoje, existe uma linha de força, a 5km., para melhorar  o fornecimento de energia elétrica.

   O proprietário da Fazenda de Areas, por razões práticas e pedagógicas, preferiu encaminhar as crianças à Escola Estadual, em Boa Sorte, desativando a Escola Municipal.

   O Sr. Bernardo e família nos recebeu em sua fazenda de uma forma muito cordial. Ao começar a falar sobre Areas, ele mencionou o nome do Barão de Nova Friburgo como sendo o desbravador das terras da região da serra.

   Disse que ele veio para os Sertões do Macacu, pobre, com apenas dois escravos, à procura de ouro. Trabalhou muito, civilizou a região e, através da agricultura, enriqueceu.

   Disse também o Sr. Bernardo que a terra dessa região é muito produtiva, e o município é muito rico, pois além de ter riqueza mineral, o solo é fértil, próprio para a agropecuária.

   O Estado do Rio de Janeiro, de 1820 a 1878, era responsável pela produção de 60% do café do Brasil -- disse o entrevistado -- estatística confirmada no trabalho-tese de mestrado do autor do Projeto A Fazenda Cafeeira Fluminense, o sociólogo Sebastião A.B. de Carvalho.

   Ambos conversaram demoradamente sobre a evolução sócio-econômica do Estado do Rio de Janeiro, analisando o papel desempenhado pelos pioneiros, que, enfrentando as dificuldades de uma terra onde tudo estava por ser feito, trabalharam com tenacidade e determinação, para estabelecer, aqui, uma nova civilização.

   Relatou o Sr. Bernardo que o Sr. João de Abreu Junior, antigo proprietário da Fazenda de Itaóca, foi pedreiro do Conde de São Clemente.

   Contou que a escola municipal existente na Fazenda, foi desativada, pois apenas uma professora lecionava para crianças de diferentes níveis, o que não é aconselhável, do ponto de vista pedagógico. Colocou as crianças para estudar na escola estadual, em Boa Sorte, onde elas têm ensino adequado às suas idades, aos seus níveis. Lá também prestam assistência aos alunos que portem deficiências físicas ou mentais.

   Colocou à disposição dos alunos uma condução, que faz o transporte nos três turnos.

   O Sr. Bernardo quer manter a fazenda com todas as características da época do Império.

   Contou que, quando o Sr. Edgard Faro de Carvalho e sua esposa, Sra. Olga, lhe venderam a Fazenda, disseram que ali terminava a história da família Clemente Pinto, pois estavam vendendo a fazenda para uma pessoa que não fazia parte dessa tradicional família, e que dali para a frente iria começar uma nova história.

   Mas o Sr. Bernardo, um homem culto e que sabe do valor histórico-cultural desse patrimônio, afirmou que vai conservar tudo como era, pois o passado dessa propriedade é muito valioso, tanto para os que ali deixaram sua história, como para ele, hoje, e as pessoas que se interessam e cultuam o passado, assim como para as gerações futuras, que terão ali o retrato vivo da história gloriosa do nosso Município e do Brasil.

   E quem sabe, com essa vibração tão positiva, esse potencial cultural, o Sr. Bernardo, que é Presidente de três Associações de Criadores de Gado, a nível nacional e internacional, possa fazer renascer, dentro de muitos que estão adormecidos, o valor da vida rural desenvolvida, progressista, num futuro bem próximo?

   Os exemplos do passado estão recomendando que o município revitalize as atividades tradicionais, embora atualmente reine grande entusiasmo por constituir-se em importante pólo cimenteiro.

   Este é na verdade o desejo de todos que, conhecendo a evolução de Cantagalo, sabe que sua base de sustentação não se deve apoiar em ilusões quiméricas, mas sobre a solidez de uma atividade tão essencial como a agropecuária, sua verdadeira vocação.

 

FOTO - O Sr. Bernardo Winkler, proprietário da Fazenda de Areias, conversa com o sociólogo Sebastião A.B. de Carvalho, diretor-Presidente do CEPEC, sobre as raízes históricas desse importante local, tecendo considerações sobre as vidas e as obras dos Barões e Condes do Café, cujos nomes estão indelevelmente ligados a várias fazendas do Município de Cantagalo.

  FOTO - No salão de visitas da Fazenda de Areias, o imponente óleo que retrata a figura do Imperador D. Pedro II, de cuja amizade desfrutavam os Barões e Condes de Nova Friburgo e São Clemente.

 


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