MUSEU VIRTUAL: HISTÓRICO, ANTROPOLÓGICO E GEOLÓGICO

 DE CANTAGALO RJ

CEPEC - Centro de Estudos e Pesquisas Euclides da Cunha

DEFENDENDO A ECOLOGIA DESDE 1959

FAZENDA BOA SORTE

Pesquisado e escrito em 1991

*3) Proprietário(s) Atual(ais): Dr. José Maria Faria e Sra. Norma dos Santos Faria.

 *4) Proprietários(s) Anterior(es): Primeiro Barão de Nova Friburgo (Antonio Clemente Pinto - 1818), Três sócios: José Domingos dos Santos (avô do Dr. José Maria), Antonio Marques Ferreira e Manuel Vieira de Souza (av^ da Sra. Norma).

 *5) Localização: (Distrito,etc.) Localiza-se a 2km do segundo distrito de Cantagalo, Boa Sorte, e a 27km da sede do Município.

 *6) Área: (alqueires; pasto, culturas, matas): Possui 66,5 alqueires, sendo boa parte em pasto, uma parte em culturas e boa parte em matas.

 *7) Observações do item 6: Anteriormente, Boa Sorte media 1.000 alqueires, com uma boa parte em culturas, outra em pasto e outra em matas, mas as sucessivas divisões motivadas por heranças reduziram-na consideravelmente.

 *8) Produção (o que; quantidade - atual e passada):

Havia extenso cafezal e plantações de cana, feijão, arroz e milho. A criação de gado garantia a produção de leite. O engenho de cana produzia aguardente. A serraria atendia às necessidades da fazenda. O moinho de milho produzia 1800 sacas de milho por dia. Havia uma cutelaria.

Atualmente, cultiva-se cana, feijão, arroz, milho. Há criação de porcos, galinhas, perus, patos, marrecos.

A terra é rica em minério: rocha calcárea, com 3km de extensão (calcáreo, mármore branco e rosado) feldspato.

 *9) Recursos técnicos: (máquinas,utensílios, mão de obra)   (atuais e/ou de outrora -- especificar)

         

A fazenda possuia, outrora, engenho de cana, alambique, moinho de milho, engenho de café, tulhas para guardar cereais. Hoje tem máquinas e utensílios utilizados na mineração, além de engenho de cana.

A mão de obra, antigamente, era escrava. Hoje, é suprida por 3 colonos e meeiros.

Possuia (e ainda hoje tem) engenhos de cana, de serra, de arroz, de café, e de fubá. O tanque para fazer licor e vinho de jaboticaba está em ruínas.

Há um pilão de ferro para café e engenho de serra com trilhos, movido a vapor.

A fazenda tem máquina de cortar capim e beneficiar milho.

A mão de obra, na década de 1945, era suprida por 80 colonos. Atualmente, são 5 empregados.

Possui Boa Sorte máquinas e equipamentos para extração de minérios, de seu rico solo.

*10) Aspectos Gerais de Interesse Cultural:

Boa Sorte impressiona o visitante pela conservação de características da época do Império. Seus proprietários esmeram-se no trato com tudo que se refere às instalações e utensílios originais, conscientes de seu grande valor histórico.

Com efeito, essa magnífica propriedade possui traços bem marcantes daquela época.

Embora uma parte só tenha os muros da construção feita pelo primeiro proprietário, em sua maior parte, a casa grande, embora lutando contra o tempo, está-se mantendo com toda originalidade.

Esta fazenda foi dada aos avós dos atuais proprietários, que eram sócios, junto com mais um, o Sr. Antonio Marques Ferreira, em pagamento por serviços prestados ao Barão de Nova Friburgo, e, depois ao Barão de São Clemente.

Antigamente, possuia maior número de quartos, mas conserva até hoje a sua imponência, que, mesmo com o passar dos anos, se mantêm.

O assoalho, todo original, as paredes, todas de estuque, os caibros do telhado são da época do Império. A escada que leva ao segundo andar é a mesma da época do Barão; a cozinha, o fogão de pedra da época dos escravos; a chave grande; o sino, de liga de ouro e bronze, data de 1820, tem, de um lado, o brasão do Barão, e do outro lado a cruz cristã. Emite uma determinada nota musical, ao ser tangido.

No quarto que hoje pertence ao casal, a cama, as mesinhas de cabeceira, o armário e a canastra (bau) todos de jacarandá, que foram do quarto de dormir do Barão.

A senzala tem 70 metros de extensão. Antigamente, dividia-se em compartimentos, mas hoje se mantem em toda sua estrutura. Já a varanda e o salão de baile estão apenas nos alicerces. Esse salão de baile era muito luxuoso: suas portas e janelas eram espelhadas, e a luz da casa grande provinha de lampiões belgas, com correntes de prata. Do lado de fora da casa, a iluminação era com candeias. Existiam 36 quartos, 88 janelas, todas com cortinas  de linha. Há, na casa, as algemas de ferro que prendiam os pés dos escravos.

Os móveis, na maioria, são da epoca do Barão. Numa das salas, há um armário estilo espanhol, com aplicação em cobre, formando quadros alusivos a D. Quixote, em toda extensão da porta.

A primeira parte da construção dessa casa grande foi realizada pelos franceses, fugitivos da invasão de Villegaignon, e depois terminada pelo Barão.

Do lado externo da casa grande, existem ainda partes remanescentes da sala de banho de imersão do Barão de Nova Friburgo, estando em perfeito estado o local do banho, as entradas e saídas de água. O tanque onde os escravos lavavam roupa e se banhavam também se conserva.

O pátio dos jardins antigos eram belíssimos, com variedade de flores nacionais e estrangeiras. Hoje, só vemos a sua estrutura básica.

No passado, Boa Sorte fabricava aguardente, de nome Aguardente Cândida Vieira dos Santos. Fabricava também vinho e licores. Hoje, cria cavalos, carneiros, suínos, galinhas, patos, etc. No que se refere à agricultura, os produtos são: cana, milho, feijão e arroz.

Ainda vemos tachos para melaço e forno para o fabrico da rapadura.

A antiga adega está em ruínas. A antiga tulha, onde guardavam cereais, abriga, hoje, velhos tonéis de cachaça, fora de uso.

Espetáculo à parte é a velha estufa.

Construída toda em pau a pique, com janelas e portas em cantaria, a estufa era capaz de conservar cereais por cerca de 50 anos! Toda assoalhada e assobradada, com janelas envidraçadas (hoje destruídas) ela possui 7 fornos que serviam para secagem do café. Trata-se realmente de uma sólida, bela e histórica construção que, com o conjunto dessa interessante Fazenda de Boa Sorte, merece ser preservada, como patrimônio da Terra Cantagalense.

  

*11) Depoimentos:(inclusive: a) Como tornar a Fazenda mais produtiva?

                                           b) Como poderia a Prefeitura ajudar?)

 O Dr. José Maria relata vários fatos de valor histórico, sendo que um deles nos vai ser dado por escrito, relatando a história de sua sogra, herdeira de um dos sócios da época do Império, que era conhecida como "A Menina de Ouro", cujo tutor foi o Dr. Eugênio Martins de Mello.

Um outro depoimento explica como essa fazenda veio a ser de seu avô e, depois, dele próprio. Contou que o seu avô, Sr. José Domingos dos Santos, português, foi administrador a serviço dos Barões, no Palacete do Gavião, onde nasceu a sua mãe, Sra. Balbina dos Santos Faria. Depois, o Sr. José Domingos foi para a Fazenda São Clemente, que era, na época, do  Sr. João Clemente Pinto, sogro do Primeiro Barão.

O Sr. Antonio Marques Ferreira e o Sr. José Domingos dos Santos eram canteiros, isto é, profissionais que faziam obras de cantaria (trabalhos em pedra), e o Sr. Manoel Vieira de Souza (avô de sua esposa) era pedreiro. O Barão, na época, preferiu fazer o pagamento a esses dedicados administradores, que tanto haviam trabalhado para manter as suas propriedades, em terras. Deu-lhes, portanto, alguns alqueires, cabendo ao avô do Dr. José Maria as terras onde está a sede da Fazenda Santa Tereza, onde o atual proprietário nasceu, a 22 de maio de 1912. Seu pai, Sr. Firmino João de Faria, que após a morte de seu sogro, tomou conta da Fazenda Santa Tereza, nasceu em 1874.

Conta-nos a Sra. Norma, que nasceu e foi criada na Fazenda Boa Sorte, que os bailes realizados nessa Fazenda demonstravam o luxo e a riqueza da época das grandes fazendas de café. Relata como eram castigados os escravos, quando um deles fazia algo fora das regras vigentes: apanhavam de"chicote de bacalhau", que era feito de arame farpado torcido; depois de apanhar até sangrar, era o pobre coitado colocado no centro do terreiro e banhado com salmoura.

Quem relatou esse fato, e outros tantos, foi um velho ex-escravo, que viveu com eles até a idade de 140 anos!

A força para manter viva a história, que narra o passado, a fim de poder mostrá-la hoje, e garantir que no futuro seja contada na íntegra -- é demonstrada, em todas as palavras, maneira de viver e conduzir o seu patrimônio, pelo culto Dr. José Maria dos Santos Faria.

Inquirido sobre a hipótese de tornar a sua fazenda um ponto de atração turística, disse-nos o Dr. José Maria que, se ajudado, teria muitos planos, como a reconstituição da sala de banho de imersão do Barão, pois tem ainda toda a rede de água, canalizando uma nascente, sistema que poderá ser reativado a qualquer momento.

Ainda, se contar com o apoio da Prefeitura, em termos de maquinas e pessoal, poderá tornar a Fazenda Boa Sorte uma Fazenda Modelo, com todas as características que possui, desde a época de sua construção, com tantas coisas de valor histórico relevante.

Essa Fazenda poderia ser muito bem explorada turisticamente.

 ADENDO:

 No passado, Boa Sorte fabricava aguardente, de nome Aguardente Cândida Vieira dos Santos. Fabricava também vinho e licores. Hoje, cria cavalos, carneiros, suínos, galinhas, patos, etc. No que se refere à agricultura, os produtos são: cana, milho, feijão e arroz.

Possuia (e ainda hoje tem) engenhos de cana, de serra, de arroz, de café, e de fubá. O tanque para fazer licor e vinho de jaboticaba está em ruínas.

Há um pilão de ferro para café e engenho de serra com trilhos, movido a vapor.

A fazenda tem máquina de cortar capim e beneficiar milho.

A mão de obra, na década de 1945, era suprida por 80 colonos. Atualmente, são 5 empregados.


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