Gilson Rangel Rolim  - escritor  

QUEM É

Resenha de fatos de sua vida, contados por ele mesmo 

1

Escrever sobre nossa própria história

mais que tarefa, é duro desafio.

Mergulhar lá no fundo da memória

pra ver onde nasceu o nosso rio.

 Teria eu nascido quando vim à luz em 13 de abril de 1929 ou quando, nos projetos de meu pai Lauro,  e de minha mãe, Maria Izabel, eu era uma das hipóteses? Fico com a primeira alternativa, a oficial; a que consta da minha certidão de nascimento do cartório de Mimoso do Sul, ES. Mas, sentimentalmente,  acalento a segunda. Dos que vingaram, sou o segundo da irmandade; o primeiro é Roberto, nascido em 1926.

 A década de vinte já se aproxima do fim. Tempos agitados e também alegres. De um lado, os conflitos políticos entrando em efervescência, com a influência da Revolução Russa se espalhando pelo mundo e o ovo da serpente do nazismo fecundado na Alemanha prestes a romper-se. De outro, o ritmo alegre do charleston  e as comédias do cinema mudo divertindo as platéias pelo mundo afora; Carlitos, alter ego de Charles Chaplin, é figura emblemática, tanto quanto Rodolfo Valentino, a face romântica do cinema e  Tom Mix, o lado aventureiro. Do lado das turbulências, ao final da década, a queda da Bolsa de Nova Iorque, com suas terríveis conseqüências econômicas em nível mundial. Do lado positivo, a descoberta da penicilina por Alexander Fleming, passo enorme na medicina, e o advento do cinema falado; embora desgostando o bom Carlitos que prescindia da fala para expressar-se em sua fabulosa mímica. Ainda do lado da agitação, no Brasil os movimentos revoltosos de 1922 e 1924, antecedendo a Revolução de Trinta. Em compensação, do lado alegre, o maxixe, a dança lasciva que empolga a moçada. Era esse o panorama vigente quando vim ao mundo.  

A crise econômica americana, cujas conseqüências negativas, se alastraram  pelo mundo todo, chegou ao Brasil e, muito particularmente, ao mercado do café cujos preços desabaram. E café era um dos principais itens negociados pela Mexicana, casa comercial que meu pai e um sócio possuíam em Mimoso do Sul. A falência de tal firma não demorou a acontecer; disso decorreu a vinda da família para Sta. Maria, vila localizada ao norte do município de Campos. É dessa ocasião a mais remota lembrança que minha memória registra. A imagem de um trem cheio de soldados, parado na estação dessa localidade e o comentário de alguém, não sei de meu pai: “É o trem da revolução.” Creio que fosse em 1932, na chamada revolução constitucionalista de S.Paulo, e tais soldados deveriam ser dos chamados “legalistas”. E o clã foi aumentando. Já havia chegado mais um irmão, Ronaldo,  em 1931; irmã, Marília chegou em 1934, ano em que a família se desloca para Niterói.

 Dessa viagem, ficou-me a lembrança de uma suposta viagem de meu avô a Lisboa, lorota dele, sobre a qual já escrevi uma crônica. Quando chega à então capital fluminense,  o grupo familiar é composto dos avós paternos, pai, mãe e quatro filhos.

 Nos seis anos subseqüentes, o velho Rolim se desdobrou em atividades diversas na luta pela sobrevivência. Desse período, o maior tempo foi vivido numa casa de corredor comprido, na rua Marechal Deodoro quase esquina de Barão do Amazonas. Lembro-me bem da vizinhança: o jornal O Arauto, de Pedro Guedes Alcoforado, do mesmo lado de nossa casa, em cuja oficina admirávamos o funcionamento daquelas máquinas enormes; e a casa de massas A Fuscaldeza, do lado oposto, anos mais tarde transformada numa grande fábrica, num ponto mais afastado da mesma rua. Marcaram, também, esse período, o acidente com meu irmão mais velho que, caindo da carroça do leiteiro, ao qual pedira uma carona, ficou por vários meses com um ferimento sério, embora sem fratura; o falecimento de minha avó Izabel e o nascimento do irmão Lauro, nessa casa, em 1936. Da época, lembro os dias de carnaval, com os bondes cheios de foliões a cantar mamãe eu quero e periquitinho verde. Ficaram-me na lembrança, ainda, o relato de um tio um tanto aventureiro sobre a cidade de Marília, no centro-sul de S.Paulo, que despontava como grande centro cafeeiro e meus primeiros anos do primário no Colégio Pinto Lima, ao lado da catedral de S.João. Antes de a família mudar-se para S.Gonçalo, passamos rápida temporada no Fonseca, onde nasceu o irmão Gelson, em 1938,  no ano em que a marcha As Pastorinhas, de Noel Rosa e João de Barro (Braguinha) fazia grande sucesso. No município vizinho, fui matriculado no Ginásio Benjamin Constant, dirigido pelo jornalista Dalton Feliciano Pinto, para concluir o primário. Desse tempo, três lembranças nítidas: a primeira, eu levando alguns pastéis feitos por minha mãe para vender no colégio, à guisa de ajuda para as finanças da casa; a outra, um teatrinho naquele colégio, onde meu irmão mais velho interpretava um monólogo conformista em que o personagem, tendo perdido um braço, uma perna, um olho, dizia: “se fossem os dois, pior poderia ser ...”; por último, o início da segunda guerra mundial, de que tomei conhecimento quando, pela mão de meu pai, desembarcava na Praça XV, no Rio, e um pequeno jornaleiro anunciava a manchete: “Guerra! Guerra! A Alemanha invadiu a Polônia.” Em janeiro de 1940, num quente  amanhecer de um de seus primeiros dias, partíamos para viver em Macaé.

2.

 Da Niterói, do velho trampolim,

a Macaé, do rio e verdes mares.

Houve, então, a mudança; e foi assim

que tudo começou em outros ares.

 A modesta condição econômica da família àquela época não permitia uma viagem no rápido, o trem mais caro e mais confortável; ou no expresso, mais popular,  é verdade, mas quase que exclusivo de passageiros. O jeito era ir de misto, um trem predominantemente cargueiro, moroso, mas que levava um carro de passageiros, o último da composição, subdivido em duas classes; nosso consolo, embarcamos na primeira, com assentos de palhinha. Da estação de Porto da Madama em S.Gonçalo, de onde saímos por volta de seis da manhã, até Macaé, onde chegamos por volta das nove da noite, uma longa e cansativa jornada. Uma lembrança dessa viagem, no ano em que para o carnaval, entre outras, Despedida de Mangueira seria um sucesso, o meu irmão Ronaldo passou quase todas aquelas horas tentando cantá-la. Mas como não sabia a letra, inventava algo diferente, o que levava os mais velhos a debocharem dele impiedosamente. Minha memória registra, também, com nitidez, o cheiro de terra molhada na noite de nossa chegada a Macaé, e os acordes da marcha-rancho Malmequer, que um conjunto tocava num clube próximo.

 Apesar de tudo, a esperança de todos era um futuro menos apertado; afinal, meu pai tinha um emprego fixo de vendedor viajante de uma firma atacadista do ramo de produtos farmacêuticos. Era  a garantia de uma renda suficiente para manter a prole com algum conforto. Recomecei meus estudos no Ginásio Municipal de Macaé, no qual cursaria o curso ginasial, a partir do primeiro ano, que acabou valendo pelo curso de admissão ao ginásio, usual à época, eis que tive de repeti-lo. Os meus quase quatro anos em Macaé foram marcantes, coincidentes que foram com minha pré-adolescência, período de nossa vida que a memória parece ter mais interesse em guardar tudo para sempre. Foram tantas as idas à estação para levar ou para receber o velho em suas viagens; tantas as caminhadas pelas matas da redondeza, acompanhando o pai em caçadas e pescarias; tantas brincadeiras com colegas de escola e vizinhança. Ah! que saudades tenho das caçadas de passarinhos com visgo de jaca ou alçapão, para depois criá-los em gaiolas que nós mesmos confeccionávamos. E aquela travessia da ponte da estrada de ferro! Um desafio, fazê-la sem olhar para o rio lá embaixo; acertar os passos na distância exata entre os dormentes. E se viesse um trem?

 Os anos 1940/43 ficaram bem no meio da Segunda Guerra Mundial, cujos reflexos em Macaé eram os aviões que, por perderem a rota ou por motivos técnicos ou estratégicos, vinham pousar no campo de aviação. Não havia pista, mas um descampado coberto de grama,  na Barra, junto ao mar, que muito serviu nas emergências. Também os blecautes na rua da Praia (a rigor a via deveria chamar-se beira-rio), em que os globos tinham pintadas de preto as faces voltadas para o mar; dizia-se que era para não chamar a atenção dos submarinos alemães. Antes que o Brasil se envolvesse militarmente na guerra, houve um movimento cívico que o povo batizou de  Pirâmide; a razão do nome vinha do fato de se formarem montes  de metais dos mais diversos que iriam, posteriormente, transformar-se em armas ou munições. Nas revistas em quadrinhos da época, os heróis viviam aventuras de guerra; lembro-me bem de César, capitão sem medo. As noticias que nos chegavam do front, ajudavam-nos a estudar geografia.

 Ficaram dessa época as figuras inesquecíveis dos professores Pierre, Moacyr, Hilda, Benilda, Tamarindo, do diretor Barbosa, de tantos colegas e amigos de infância cujas figuras  guardo na memória. Lembranças que ficaram: alegre, o nascimento do caçula Laurimar, em 1940; triste, o falecimento de meu avô Antônio Rolim; lembro-me dele, empertigado, colete e relógio de bolso, indo encontrar-se com amigos na rua Direita, quase diariamente. E o mais triste de todos, em 13 de agosto de 1943, o que me fez órfão aos quatorze anos: o de minha mãe cuja meiguice e os olhos negros e fundos eu jamais esqueço. Fixa em minha memória está a imagem de colegas uniformizados em seu  cortejo fúnebre.

  

3.

 Era preciso, então, recomeçar

sem ter ao lado nossa mãe querida.

Ficaram sete filhos pra cuidar.

Que duro desafio impôs a vida!

 

4.

 Por força de real necessidade,

- um menino -, o trabalho logo enfrento.

Estudo à noite, com muita vontade,

pra garantir ao menos meu sustento.  

 

5.

 Trabalho com vontade, vou contente

levando meus estudos de vencida.

Namorar é normal, é conseqüente,

hei de encontrar, por certo, a preferida.

 

6.

 Um ou dois anos mais eis que se passam,

então a sorte grande me aparece:

diante de meus olhos que se embaçam,

ela me disse sim. Isso enternece.

7.

 E formamos um grupo bem feliz;

passa o tempo, as crianças vão pra escola.

Alegria da mãe, ciosa matriz;

vibra o pai, já não mais um rapazola.

 

8.

 Agora vão entrados os setenta,

novas barreiras temos superado.

Ultrapassando a marca dos quarenta,

um desafio: estou desempregado.

 

9.

 Já vai a meio  a década de oitenta.

Casa-se, bem feliz, a minha filha,

eis que um novo cenário se apresenta:

surge outra geração nesta família.

 

10.

 Anos noventa,  década final,

foram-se três pessoas tão queridas.

Isso é da vida, volta-se ao normal.

Ficamos a curar essas feridas.

 

11.

 Por tantos mares nós já navegamos;

tantos caminhos, juntos, percorremos.

Essas sementes que co’amor plantamos

dão-nos a prova desse amor que temos.

 O ano de 2002 começou auspiciosamente. Logo em janeiro, em meio ao júbilo da comemoração, completei cinqüenta anos de união com a querida Guiomar – bodas de ouro, convencionalmente. Por ocasião do evento, quando reunimos amigos  íntimos e parentes próximos, distribuí entre eles o meu livro artesanal Contos, Versos & Outros Escritos.

 Nos meses subseqüentes, num ano politicamente agitado pela campanha eleitoral, da qual resultou a eleição de Lula, em sua quarta tentativa, seguíamos a vida tranqüilamente, sem qualquer indício de que algo grave estivesse por acontecer.  Contudo, aos primeiros dias de novembro, cobriu-nos uma onda de tristeza. De súbito, uma grave enfermidade leva minha querida Guiomar a uma internação hospitalar que termina, vinte dias depois, com seu falecimento a três de dezembro. Era o fim abrupto de uma convivência amorosa de quase cinqüenta e três anos, desde que cruzamos nossos olhares em abril de 1950. A propósito desse doloroso evento escrevi os versos a seguir, sob a emoção que me causara, o qual intitulei Um Poema de Despedida:

Estes são versos que eu gostaria de não ter escrito.

Uma despedida definitiva dói no fundo da alma,

dilacera as fibras do coração de quem fica.

Por um momento, a muito custo, se contem o grito,

e a emoção se vê aparentando calma.

O corpo sente o golpe, chora, se mortifica.

 

Por mais que se busque aceitar os desígnios dos céus,

seguindo as linhas travessas que Deus traça,

ainda assim a separação é quase inaceitável.

Levam-nos tais tristes dúvidas à condição de incréus,

fazendo-nos sorver na dor o amargor da taça

do duro castigo de uma sentença inapelável.

 

Mas, no fim, prevalece em nós o puro sentimento da fé

para que aceitemos a verdade da vida eterna.

E as dúvidas que nos assaltam, indo e vindo qual maré,

fenecem. E o Deus supremo que nos governa

dá-nos a certeza de que nosso ente amado vive, ainda é.

  Buscando de alguma forma retomar a normalidade de minha vida, faltando-me, contudo, a parte que de mim se deslocou, decidi dedicar-me à elaboração do livro que planejei para marcar efetivamente minha presença nos meios literários de Niterói. Eu mantinha uma relação à distância com essa comunidade, apenas acompanhando suas atividades pelo que era publicado na imprensa. Através de contatos com o escritor Wanderlino Teixeira Leite Netto – biógrafo do grande Jacy Pacheco, um nosso amigo comum que, noutros tempos me recomendara uma aproximação com esse escritor, e com o poeta Alberto Valle, com o qual travara conhecimento um ano antes, procurei integrar-me a esse grupo de intelectuais, passando a freqüentar a Academia Niteroiense de Letras.

 Antes que o ano terminasse, estava pronto meu livro O TEMPO NEM VIU PASSAR , cujo prefácio e edição ficaram a cargo de um velho companheiro, o escritor Iderval Garcia. Em 2004, conforme planejara, destinei a instituições beneficentes cerca de dois terços dos exemplares da edição para que, vendendo-as, usufruíssem dos recursos obtidos; o restante, destinei a pessoas de minhas relações – parentes e amigos – e a companheiros de letras. Formalmente, o livro foi lançado em duas oportunidades. Na primeira, em fevereiro, no Abrigo do Cristo Redentor, em S.Gonçalo, e em abril, no Calçadão da Cultura, sob o patrocínio do Grupo Mônaco.

 Essa minha integração com a ANL levou Wanderlino a sugerir que eu me candidatasse a uma das cadeiras vagas. De início, rejeitei a idéia, alegando que minha integração àquele grupo acadêmico não visava a esse propósito; o objetivo real era conviver com eles. Contudo, face à percepção que tive de que tinha a simpatia e o apoio de vários acadêmicos, destacando-se Márcia Pessanha e José Alfredo Andrade, candidatei-me à  cadeira de número 49, patronímica de Benjamin Constant,  anteriormente ocupada pelo poeta Celso Furtado de Mendonça,  aliás o único ocupante até então. Submetido ao crivo da comissão indicada pela diretoria da ANL, logrei aprovação; no dia 12 julho de 2004 fui formalmente eleito.

 Antes, em junho, fizera perante os acadêmicos uma apresentação para justificar meu pleito.

 Finalmente, a 15 de setembro, em cerimônia levada a efeito no Clube Português de Niterói, tendo como padrinho o poeta Alberto Valle, tomei posse solene, passando, para honra e orgulho meus,  à condição de acadêmico titular da histórica casa de literatura que é a Academia Niteroiense de Letras. O diploma a que fiz jus, com orgulho ostento-o, emoldurado, em meu modesto estúdio.

 Neste 2004, além do júbilo pelo lançamento de meu livro e a entrada na ANL, continuei a escrever meus versos, minhas histórias, minhas músicas. “Que palavras você quer ouvir,/ de ternura e de fazer feliz,/ de censura e de fazer chorar,/ de alegria e de fazer sorrir...” são versos da canção Recomeço;  “... Rosas vermelhas, amarelas,/ rosas de todas as nuances./ Rosas de pétalas tão belas,/ rosas de todos os romances ... fazem parte da valsa Falando de rosas, com música de Sylvio Vianna.

 O primeiro ano bissexto do século XXI vai findando; alegro-me de ver meu grupo de seis bastante unido. O neto Felipe empenhado,  com entusiasmo, em chegar à universidade; Guilherme ultrapassando mais uma barreira. E graças à iniciativa de meu filho, que adquiriu um apartamento em Teresópolis, tenho usufruído os ares da serra. Lamento, e muito, a ausência de Guiomar, ela que tanto gostava daquela cidade a qual, por três anos, no início dos noventa dividiu com Niterói. Mas, apesar desta sentida falta, procuro tirar partido de seus  bons e inspiradores ares!

 E assim foi que

 Mergulhei bem no fundo da memória

e vi onde nasceu esse meu rio.

Refiz alguns passos de minha história,

dura tarefa, grande desafio! 


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